Depois de nos ensinar a dizer "Pai nosso", Jesus acrescenta uma expressão que, ao longo da história, foi muitas vezes mal compreendida: "que estás nos céus". Para alguns, essa frase acabou servindo como justificativa para uma fé distante, desligada da realidade concreta, como se Deus estivesse longe demais para se importar com a vida cotidiana. No entanto, no ensino de Jesus, o céu nunca foi lugar de fuga; sempre foi horizonte de sentido. Quando Jesus fala dos céus, ele não empurra Deus para longe da terra, nem o retira da história. Pelo contrário, afirma que a realidade não se esgota no que vemos, no que tocamos ou no que conseguimos controlar. O céu não nega o chão da vida, ele o ilumina. Não substitui a existência concreta, oferece direção. Dizer que Deus está nos céus é reconhecer que Ele não cabe nos nossos esquemas, nem pode ser reduzido às nossas agendas, interesses ou sistemas religiosos. Deus não se confunde com nenhum poder humano, com nenhuma estrutura política ou instituição. O céu, nesse sentido, preserva a liberdade de Deus e, ao mesmo tempo, protege o ser humano da tentação de absolutizar aquilo que é provisório. Esse reconhecimento, porém, não nos afasta da vida real. Ao contrário, devolve-nos a ela com mais lucidez. O céu não serve para anestesiar o sofrimento da terra, mas para denunciar tudo aquilo que fere a dignidade. Quando Jesus aponta para os céus, oferece um critério, não um esconderijo. O céu revela como a terra deveria ser. Há uma sabedoria profunda nessa afirmação. Se tudo se resume ao imediato, ao visível, ao produtivo, ao que gera resultado rápido, a vida se torna pesada demais. O céu nos lembra que a existência é mais ampla, que a dignidade humana não depende apenas de desempenho e que o valor das pessoas não se mede por utilidade. Essa consciência não nos retira do mundo, impede que sejamos engolidos por ele. Ao mesmo tempo, o céu nos livra de absolutizar nossas dores e fracassos. Ele nos lembra que a história não termina nas injustiças que vemos, nem nas feridas que carregamos. Há um horizonte maior, uma promessa silenciosa de que a última palavra não pertence ao caos, à violência ou à morte. Essa esperança não é alienação, é resistência. Jesus nunca falou do céu para justificar indiferença diante da miséria, da opressão ou da desigualdade. Sempre que o céu aparece em seu ensino, vem acompanhado de responsabilidade. O céu aponta para um Deus que vê, que ouve, que se importa e que convoca seus filhos e filhas a viverem de forma coerente com esse olhar. Quando o céu deixa de ser fuga e se torna referência, algo se reorganiza em nós. Já não nos colocamos no centro de tudo, nem medimos a vida apenas pelo que é imediato ou recompensador. Passamos a viver na terra orientados por valores que não nascem do interesse próprio, mas de algo maior que nos precede, nos sustenta e nos chama a uma forma mais responsável de habitar o mundo. O céu, nessa oração, não é um destino distante a ser alcançado depois da morte, mas uma referência constante para a vida aqui e agora. Ele nos lembra que fé não é escapar do mundo, mas aprender a habitá-lo de outro modo: com mais consciência, esperança e responsabilidade.
Capítulo 2
Que estás nos céus
O céu não é fuga, é referência
Salmos 19:1 - Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.