A oração começa antes do primeiro pedido. Antes de falar de pão, de perdão ou de livramento, Jesus redefine a forma como nos colocamos diante de Deus. Ele não diz "meu Pai", nem "Pai de cada um", mas "Pai nosso". Essa escolha não é apenas afetiva; é profundamente teológica. Logo na primeira palavra, a oração desmonta qualquer tentativa de viver a fé como propriedade privada. Chamar Deus de Pai é, por si só, um gesto de intimidade e confiança. Mas chamá-lo de Pai nosso amplia esse gesto e o desloca do campo individual para o campo comunitário. Deus não se relaciona comigo à revelia do outro. Não há acesso exclusivo, não há fé isolada, não há credencial que me coloque acima ou à frente. Ao dizer "Pai nosso", confesso que não estou sozinho no mundo e que minha relação com Deus está, inevitavelmente, ligada à relação com as pessoas. Essa expressão simples confronta uma fé autocentrada, preocupada apenas com salvação individual, sucesso pessoal ou bem-estar particular. O Deus de Jesus não se deixa reduzir a uma experiência privada, restrita ao íntimo, desconectada da realidade coletiva. O Pai nosso nos lembra que toda fé assumida com honestidade produz vínculo, responsabilidade e pertencimento. Há algo ainda mais profundo nesse início. Se Deus é Pai nosso, então ninguém é órfão diante dele. Isso significa que nenhuma pessoa pode ser descartada sem que a própria oração seja violentada. Não é possível chamar Deus de Pai nosso e, ao mesmo tempo, negar dignidade, alimento, cuidado ou escuta ao outro. A oração cria um chão comum onde todos se colocam no mesmo nível, não por mérito, mas por filiação. O Pai Nosso também relativiza nossos critérios de poder. Diante desse Pai, não há currículos espirituais, hierarquias religiosas ou títulos que nos diferenciem. Somos filhos e filhas, igualmente dependentes, carentes e sustentados. Essa consciência não humilha, restitui a humanidade. Não diminui a fé, aprofunda-a. Quando Jesus nos ensina a começar assim, ele nos educa para uma fé menos performática e mais responsável. Uma fé que entende que não se pode falar de Deus sem falar de gente, nem orar com verdade enquanto se ignora o sofrimento alheio. O "nosso" da oração impede que transformemos Deus em justificativa para o egoísmo e nos chama a uma fé que se expressa em cuidado concreto. Dizer Pai nosso nunca é um gesto neutro. Essa oração não permite que nos escondamos atrás de palavras bonitas, nem que terceirizemos a fé para um sagrado desconectado da vida. Ao pronunciá-la, assumimos – ainda que nem sempre percebamos – um compromisso silencioso com o outro, com a comunidade e com o mundo que habitamos. A oração mal começou e já somos convidados a rever o nosso jeito de ser e estar na vida. E isso não é pouco.
Capítulo 1
Pai nosso
Deus não cabe no singular
Efésios 2:19 - Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus.