Depois de tocar a vida concreta por meio do pão, Jesus conduz a oração para um território ainda mais sensível: o das relações feridas. "Perdoa as nossas dívidas" não é apenas um pedido espiritual, é uma confissão. Antes de pedir qualquer coisa, reconhecemos que estamos em falta, que carregamos débitos que não se resolvem apenas com boa intenção e que a vida, quando vivida em relação, inevitavelmente produz rupturas. A palavra dívida carrega um peso que ultrapassa o campo religioso. Ela pertence ao universo econômico, social e afetivo. Dívida é aquilo que prende, que limita, que cria dependência e produz assimetrias de poder. Ao usar essa linguagem, Jesus amplia o alcance do perdão. Ele não fala apenas de falhas morais individuais, mas de relações quebradas, injustiças acumuladas e desequilíbrios que atravessam pessoas, famílias e comunidades. Pedir perdão, nesse contexto, não é gesto de autopunição nem tentativa de aliviar a consciência. É admitir que nossas escolhas têm impacto, que nossas omissões também ferem e que nossas palavras podem marcar profundamente. A oração nos impede de romantizar nossas falhas e, ao mesmo tempo, livra-nos da ilusão de autossuficiência. Não nos salvamos sozinhos. Mas a oração não se encerra no pedido. Ela avança para um território ainda mais exigente: "assim como nós perdoamos aos nossos devedores". Aqui, o perdão deixa de ser apenas algo que recebemos e passa a ser algo que praticamos. A graça que pedimos é a mesma graça que somos chamados a oferecer. Não como moeda de troca, mas como expressão de um coração que foi tocado. O perdão que Jesus ensina não é submissão disfarçada de fé, nem silenciamento de vítimas, nem tolerância com abusos. Perdoar não significa legitimar injustiças, abrir mão da verdade ou desistir da justiça. Significa escolher não viver aprisionado à lógica da vingança, da amargura e do ódio que corroem por dentro e perpetuam o mal.
Capítulo 7
Perdoa as nossas dívidas
Quando a graça reorganiza as relações
Mateus 18:21-22 - Senhor, quantas vezes devo perdoar meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes? Jesus respondeu: Não até sete, mas até setenta vezes sete.