Capítulo 6

O pão nosso de cada dia

Capítulo 6

O pão nosso de cada dia

Quando a fé encontra a mesa

Mateus 6:11 - O pão nosso de cada dia dá-nos hoje.

Depois de falar do Reino e da vontade de Deus, Jesus conduz a oração para algo surpreendentemente simples e, ao mesmo tempo, profundamente concreto: o pão. Não uma ideia abstrata, não um conceito espiritualizado, mas o pão de cada dia. Com isso, ele deixa claro que a fé que ensina não ignora o corpo, a fome, a mesa e a sobrevivência. Pelo contrário, começa exatamente aí. Há algo profundamente humano nesse pedido. Antes de falar de grandes realizações, antes de pedir proteção contra o mal, antes de tocar em questões morais mais complexas, Jesus nos autoriza a pedir o necessário. O pão não é luxo, não é excesso, não é acúmulo; é o básico. É aquilo sem o qual a vida não se sustenta. Orar pelo pão é reconhecer nossa dependência, nossa fragilidade e nossos limites. Mas o pedido não é apenas por pão, é pelo pão nosso. Mais uma vez, a oração nos tira do singular e nos impede de transformar a fé em busca individual por segurança. Não é "meu pão", não é "o pão que conquistei", não é "o pão que acumulei". É o pão que pertence à mesa comum, ao sustento partilhado, à vida que só se sustenta quando não exclui. Essa pequena palavra confronta uma lógica profundamente enraizada em nós: a lógica do acúmulo. Vivemos como se nunca fosse suficiente, como se o amanhã estivesse sempre ameaçado, como se garantir mais fosse a única forma de sobreviver. O Pai Nosso nos ensina outro aprendizado: o pão é de cada dia, nem do ontem que já passou, nem do amanhã que ainda não chegou; ele é o suficiente para hoje. Esse pedido também nos força a encarar uma realidade incômoda. Enquanto alguns acumulam pão que apodrece, outros não têm sequer o pão de hoje. Orar pelo pão nosso de cada dia é, inevitavelmente, entrar em conflito com sistemas que normalizam a fome, que tratam a miséria como estatística, que espiritualizam a pobreza para não confrontá-la com injustiça concreta, nem transformá-la em responsabilidade ética, social e política. Essa oração não permite neutralidade confortável.