A oração se aproxima do fim, mas não perde profundidade. Pelo contrário, Jesus encerra os pedidos conduzindo-nos a uma das realidades mais difíceis de nomear e enfrentar: o mal. "Livra-nos do mal" não é um clamor ingênuo, nem uma tentativa de negar a dureza da vida. É o reconhecimento lúcido de que o mal existe, age, atravessa histórias, estruturas e pessoas, porém não temos forças suficientes para enfrentá-lo sozinhos. O mal, aqui, não aparece como ideia vaga nem apenas como falha moral individual. Ele se manifesta de forma concreta, histórica e relacional. Está na violência que se repete, na injustiça que se normaliza, na indiferença que se torna regra, na mentira que se organiza como sistema. Está também dentro de nós, nas pequenas concessões que fazemos, nos silêncios que escolhemos, nas vezes em que nos adaptamos ao que fere para não sermos feridos. Ao nos ensinar a orar assim, Jesus nos afasta de duas ilusões perigosas. A primeira é a de que o mal está sempre fora de nós, sempre no outro, sempre distante. A segunda é a de que o mal é invencível, absoluto, soberano sobre a história. A oração reconhece sua presença, mas se recusa a aceitá-lo como destino. Pedir livramento é admitir vulnerabilidade. É reconhecer que, diante do mal, boas intenções não bastam, força de vontade é limitada e lucidez pode falhar. Essa oração não nasce do medo paralisante, mas da consciência de que o mal se infiltra quando baixamos a guarda, quando nos acostumamos, quando começamos a chamar de normal aquilo que jamais deveria ser. O mal também se expressa em estruturas que produzem exclusão, desigualdade e sofrimento contínuo. Orar por livramento, nesse sentido, é mais do que buscar proteção individual; é recusar cumplicidade. É pedir força para não reproduzir aquilo que criticamos, para não nos beneficiar silenciosamente do sofrimento alheio, para não nos tornarmos parte do problema enquanto acreditamos estar do lado do bem. Há também esperança nesse clamor. Se pedimos livramento, é porque acreditamos que o mal não tem a palavra final. A oração afirma, sem alarde, que a vida é mais forte, que o amor resiste e que a justiça pode brotar mesmo em terrenos áridos. Essa esperança não ignora a dor, recusa-se a se render a ela.
Capítulo 9
Livra-nos do mal
Quando o mal deixa de ser abstrato
João 17:15 - Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno.